Notas sobre arte, luxo, lixo, consumo e estética do cotidiano · PDF file77 - Notas...

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    Notas sobre arte, luxo, lixo, consumo e esttica do cotidiano

    Afonso Medeiros*1

    *Afonso Medeiros pesquisador, doutor em Comunicao e Semitica pela PUC-SP (2001), professor associado do Instituto de Cincias da Arte e coordenador do Programa de Ps-Graduao em Artes da Universidade Federal do Par. E-mail: [email protected]

    Da indstria do lixo indstria do luxo (ou vice-versa), este ensaio aponta algumas questes sobre a esttica do cotidiano que so atravessadas pe-los modos de absoro, diluio e replicao da arte na cultura contempo-rnea. Dentre essas questes, aborda-se a complexidade dos processos de criao, transmisso e recepo esttica que permeiam as relaes sociais e so potencializados pela cibercultura.

    arte, esttica do cotidiano, cultura contempornea

    Numa cena de O diabo veste Prada (The Devil Wears Prada, Estados Unidos, 2006), a pode-rosa editora de uma revista de moda (Miranda Priestly/Meryl Streep) explica sua assistente recm- contratada (Andrea Sachs/Anne Hathaway) como a cor do suter que esta usava na-quele momento surgiu na coleo de um grande estilista e, passando por diversas instncias da indstria da moda, chegou s lojas populares onde, provavelmente, a assistente o comprou numa liquidao. A fala da temida editora, irnica, didtica e arrogantemente expressa, pode servir de exemplo de como a atividade criativa destinada prioritariamente indstria do luxo e ao gozo exclusivo de uma minoria que detm as rdeas do mercado pode ser ampliada atra-vs dos meios de comunicao de massa e absorvida indistintamente por todos os segmen-tos sociais, estabelecendo padres de consumo, de comportamento e de juzos estticos

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    replicveis ao infinito. Da mesma maneira, no se pode negar que a obra de arte, pelo menos aquele tipo de obra que trafega pelos circuitos dos leiles e das feiras internacionais, h muito tornou-se um fetiche que alimenta a indstria do luxo de um lado e, por outro, anseia por dissolver sua aura ao limite da exausto. Tambm verificamos, recentemente, o mesmo tipo de atravessamento cultural aqui no Brasil: obras de Beatriz Milhazes e Vik Muniz foram maciamente copiadas no design grfico de vrias mdias, das capas de revistas ao marketing institucional ou da moda s vinhetas de popularssimas telenovelas.

    Neste carrossel presente no circuito da criao-divulgao-consumo-replicao, busca-se o status de celebridade com a consequente popularidade que o legitima neste sentido, nada de novo sobre a terra, pois que a pintura e a escultura h muito so instrumentos do cul-to celebridade , mas essa popularidade, firmemente apoiada pelos poderes miditicos, tambm cobra o alto preo do desgaste e da substituio vertiginosa de pessoas, objetos, comportamentos, desejos e estticas. necessrio assinalar, portanto, que o caminho que se estabelece entre a criao e a replicao, passando pela divulgao e pelo consumo, uma via de mo dupla que conforma, entre outros aspectos da sociedade atual, o que poderamos chamar de esttica do cotidiano. Da criao ao descarte e reciclagem (razo de ser da inds-tria do lixo) instalam-se redes habilmente exploradas pela indstria cultural e pela economia da cultura, num emaranhado que envolve artistas, designers e estilistas s vezes, criadores que so ao mesmo tempo artistas-designers-estilistas, a exemplo do japons Takashi Murakami.

    Mas o que se entende por esttica do cotidiano? Uma esttica do comum, do dia a dia, do consumo rotineiro? Tambm, mas no somente. O termo ambivalente, pois se refere tanto ao ato criativo que se alimenta de elementos da vida diria quanto ao sentimento provocado por situaes e objetos corriqueiros. lisabeth de Borqueney introduz o tema com as seguin-tes questes: Por que os objetos que nos rodeiam cotidianamente so alvos de nosso afeto ou de nosso desprezo? O prazer que estes objetos proporcionam uma espcie de perverso ou de consentimento para o estupro da autoimagem? O livre arbtrio opera por entre as dores e as delcias provocadas pela posse ou pela renncia de objetos? E, finalmente, a posse des-ses objetos interfere na constituio da identidade e da alteridade e nas relaes entre estas? Segundo Borqueney, essas indagaes deveriam interessar ao discurso sobre a esttica do cotidiano, visto que tal discurso deveria palmilhar os prazeres e desprazeres presentes nas re-laes com os objetos cotidianos, o quanto dessas relaes depende ou no de uma escolha pessoal e como a posse e as relaes estabelecidas com os objetos constroem ou destroem

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    as identidades e as subjetividades. Mas outras consideraes podem ser evidenciadas, pois uma esttica do cotidiano, queremos crer, deve ser pensada nas redes tecidas entre o popular e o erudito e entre a indstria do luxo (do objeto nico e distintivo) e a indstria do lixo (do objeto descartvel e reciclvel), atravs de cadeias e conexes dinmicas e interativas que constituem o fluxo incessante da cultura contempornea.

    O termo esttica, aliado s sensaes provocadas pela cotidianidade e mesmo que evocan-do uma filosofia do belo e da arte, no deixa de ser pertinente na medida em que um ideal de beleza (seja qual for esse ideal) perpassa tanto a esttica clssica quanto o senso comum con-temporneo. A partir dessa percepo presente tanto na acepo filosfica quanto na do sen-so comum, uma viso conceitual sobre a esttica do cotidiano passaria por Charles Baudelaire (2006) e pelo flneur/voyeur da vida moderna (do agora), atravessaria Walter Benjamin (1983) e a reprodutibilidade tcnica que espicaa a aura do objeto nico, e desembocaria em Jean Baudrillard (1990), na proliferao da arte e na mais-valia do signo:

    Nesse sentido, a Arte desapareceu. Desapareceu como pacto simblico, pelo qual se distingue da pura e simples produo de valores estticos, que conhecemos sob o nome de cultura: proliferao dos signos ao infinito, reciclagem das formas passadas e atuais. J no existe regra fundamental, critrio de julgamento nem de prazer. (BAUDRILLARD, 1990, p. 21)

    nessa pura e simples produo de valores estticos que constitui a cultura atual atravs da replicao sgnica incessante (que alguns chamariam de releitura) do passado e do pre-sente que poderamos palmilhar os estatutos de uma esttica do cotidiano, discordando de Baudrillard no que diz respeito ao desaparecimento da arte. A arte no desapareceu, mas foi diluda ou se imiscuiu nas teias do cotidiano, seja por causa do desejo mais ou menos cons-ciente do artista desde a modernidade, seja por causa da absoro e da replicao da obra pela indstria cultural. Mesmo quando escapou dessa reciclagem produzida pelo moinho da indstria cultural, a arte, em muitos momentos, esteve envolvida com o cotidiano ao longo de sua histria. Uma das questes que a esttica do cotidiano pode aambarcar so justamente as formas de produo e recepo da arte no dia a dia, seja atravs da laboriosidade diluidora de todas as indstrias, seja por conta de um tipo de aproximao entre arte e vida que tenta escapar do crculo vicioso estabelecido pelo consumo indiscriminado.

    Em termos expressivos, uma esttica do cotidiano poderia ser pensada a partir do Realismo, passando pelo Impressionismo e pelo Modernismo e desaguando na Pop Arte e na Arte Conceitual tambm para citarmos poucos e no to longnquos exemplos. Aqueles autores

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    previamente citados (Baudelaire, Benjamin e Baudrillard) e estas tendncias histricas da arte constituem-se apenas como ferramentas propiciadoras de um recorte, pois que a questo pode ser abordada sob variados pontos de vista.

    O consumo tem como lgica o descarte e a incessante substituio no s de objetos, como tambm de desejos, de amores, de corpos e de teorias, amparados pelo vertiginoso avano da cincia e da tecnologia. Consequentemente, o prazer produzido na experincia esttica tambm efmero e descartvel. O desinteresse e o no racionalismo que Immanuel Kant (2002) j havia assinalado como definidores da experincia esttica precisam ser relativizados e problematizados, na medida em que o prazer proporcionado por esse tipo de experincia no s programvel e induzvel, como tambm monitorado e avaliado na contemporaneida-de. Um dos caminhos possveis para a problematizao da esttica do cotidiano contrastar a criao e a recepo do discurso kantiano que ainda hoje goza de um inabalvel prestgio acadmico com as interfaces produzidas entre arte, sensibilidade e juzo de gosto na con-temporaneidade. Peter Osborne (2010), por exemplo, ope o discurso da arte ao discurso da esttica a partir da interpretao que ele faz do legado kantiano:

    La idea de que la esttica es un discurso filosfico sobre el arte se debe, en gran medida, al nefasto legado de la recepcin de este texto [Crtica del juicio], con su aparente confirmacin de la legitimidade de reunir los tres discursos (en un principio independientes) de la belleza, la sensibilidade y el arte en un todo integral filosfico. (OSBORNE, 2010, p. 37)

    Apesar de, sob o ponto de vista de Peter Osborne, ser um equvoco reunir os discursos kantia-nos sobre a beleza, a sensibilidade e a arte num todo integral filosfico, torna-se necessrio especular o estatuto conceitual de uma esttica do cotidiano que Kant nos perdoe! no pode prescindir justamente das imbricaes entre arte, sensibilidade, juzo de gosto e lgi-ca do consumo, sobretudo se considerarmos os contextos filosficos, artsticos, cientficos e tecnol